Em busca de sentido

Até o ponto que podemos compreender, o único propósito da existência humana é acender a luz do SENTIDO na escuridão do mero SER.
Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

O Drama Alquímico do Fausto de Goethe (TRADUÇÃO)


Com resumo do Fausto
Escrito por Adam McLean ©
Fonte: http://www.levity.com/alchemy/faust.html 

Fausto invocando espíritos em seu
laboratório 
     O Fausto de Goethe é raramente representado no teatro inglês. O trabalho é demasiado enigmático e frequentemente desorienta e confunde seus espectadores. Além disso, os efeitos de palco, em especial as cenas da Parte 2, são tão difíceis de organizar de forma convincente, que não é nenhuma surpresa que os diretores e gerentes teatrais se afastem deste trabalho clássico. No entanto, a produção recente das duas partes do Fausto de Goethe no Lyric Theatre em Hammersmith (distrito localizado a oeste de Londres, à margem norte do rio Tâmisa – N. T.) abordou o trabalho vigorosamente e não evitou sublinhar seus aspectos alquímicos.
     A alquimia no Fausto de Goethe é central para sua concepção dramática, e não foi adicionada meramente como efeito. O trabalho de Goethe sobre a história de Fausto (um conto já muito difundido na época – N. T.) difere de outros dramas baseados na lenda arquetípica de um mago que vende sua alma ao diabo, selando o pacto com uma gota de sangue e que, finalmente, padece o fogo do inferno. O drama de Goethe revela vários processos de transformação operando na alma humana, personificada por Fausto. Goethe esforça-se para tecer a jornada interior de Fausto na direção de uma solução, juntamente com as forças sociais coletivas que estão passando por transformações no decorrer do processo histórico. Por isso Fausto é também um representante dos europeus do norte em sua luta por evolução a partir das restrições e limitações da Reforma do século XVI para as novas aspirações da humanidade que Goethe viu desenvolver durante o Iluminismo no século XVIII.
     O trabalho é muito complexo e multifacetado para que eu pretenda fazer mais do que pontuar alguns temas alquímicos na peça. [...] Precocemente, Goethe estudou extensivamente a literatura alquímica e ficou apto a elaborar uma alegoria ao estilo da alquimia. O conto de Fausto é uma alegoria da transmutação interior da alma, em que diferentes polaridades emergem e se juntam novamente. No conto duas terras separadas por um rio são reunidas por meio da transmutação alquímica, o que tem lugar em um templo subterrâneo. No seu Fausto, Goethe apresenta novamente a separação dos opostos que são reunidos em uma nova transformação. A primeira parte do Fausto segue de perto a estrutura do mito do Fausto, embora nos detalhes da ação introduza temas mais amplos que serão desenvolvidos na segunda parte da peça.
O pacto de Fausto com Mefistófeles
     A primeira parte se inicia com Mefistófeles apostando a alma de Fausto com Deus. Fausto havia se esforçado muito para conseguir a iluminação, estudou profundamente, e ansiava como resultado conhecimento e compreensão. Deus indica que Fausto atende sem compreender ao seu plano e que ele acabará por ser levado à luz, mas concede liberdade a Mefistófeles para tentar Fausto ao erro. Assim, Goethe altera sutilmente a história de Fausto em seu início fazendo um paralelo com o teste de Jó.
     Na primeira parte da peça, Fausto é levado ao pacto com Mefisto, se desfaz de sua bata de acadêmico, deixa seus estudos e seu cubículo de estudos para trás, para mergulhar na aventura da vida. Sua sublime busca de conhecimento e estudo de Filosofia, Direito, Medicina, Teologia e Ciências reprimiu sua experiência dos sentimentos humanos. Quando Mefistófeles permite o fluir de suas emoções, não é surpresa que estas emerjam em uma forma adolescente e desintegrada. Com a malícia e a astúcia de Mefisto, Fausto persegue a jovem virgem Margarida e, finalmente, corrompe e destrói sua vida. Como é apresentado no seu conto, para Goethe o problema primordial da humanidade repousa na sua incapacidade de se relacionar com o componente feminino da sua natureza. Para Goethe, o desenvolvimento apropriado da alma humana consiste em estabelecer um relacionamento adequado entre os aspectos femininos e masculinos. Desse modo, a primeira parte do Fausto nos coloca ante o principal problema da alma de Fausto: sua dificuldade em se relacionar com o lado feminino do seu ser.
     A segunda parte do trabalho é um drama verdadeiramente alquímico cujos cinco atos tecem uma complexa rede de temas. Goethe escreveu Fausto ao longo de um período de quase 60 anos, e o conflito que ele teve com esse material se mostra na incoerência aparente da segunda parte do drama. Se alguém lê a peça como uma alegoria hermética, as inconsistências do drama se dissolvem quando se percebe a estrutura subjacente às várias e diferentes cenas.
A invocação de Helena
     A Parte II começa com Fausto se recuperando, através do poder da natureza, dos embates emocionais que ele sofreu no episódio desastroso com Margarida. Na companhia constante de Mefistófeles, Fausto serve à corte do imperador. O império está em ruína financeira devido à extravagância da corte, mas Fausto e Mefisto oferecem uma solução a estes problemas. Até aquele momento a moeda do Império tinha sido o ouro, que não foi suficiente para suportar os grandes gastos. Mefisto sugere uma fácil solução: já que, sem dúvida, havia muito ouro ainda por se descobrir abaixo da terra, o qual pertencia ao imperador, então, certamente, poderia ser feita uma nota promissória no valor desse ouro. Ele cobre a corte com o dinheiro de papel novo. A fundação do Império foi transferida, através da astúcia de Mefisto, da segurança do ouro metálico para as promessas insubstanciais do papel. Fausto, exercendo a função de mago, é convidado pelo imperador a evocar o espírito de Helena de Tróia. Goethe está aqui aproveitando a história de Johannes Trithemius  evocando espíritos ante o imperador Maximiliano. (Esta cena também foi incluída por Marlowe na sua Trágica História da Vida e Morte do Doutor Fausto (1593). Curiosamente, Trithemius parece ter encontrado a histórica personalidade de Georgius Sabellicus, um aventureiro mágico, por quem tinha pouca consideração, que adquiriu o nome e a reputação de Fausto no início do século XVI.)
     Novamente Fausto procura fazer algum contato com o feminino, desta vez na forma da bela e idealizada heroína da lenda grega. Para consegui-lo, ele precisa entrar no reino das mães, fora do tempo e do espaço, nas profundezas da terra. Os espíritos de Páris e Helena são convocados, e a corte assiste ao seu encontro como que através de uma cena vívida em uma tela. Fausto, impressionado pela beleza de Helena, fica com ciúmes de Páris, o qual a abraça. Esquecendo-se, Fausto salta para o círculo mágico com os espíritos e tenta agarrar Páris.
A criação do Homúnculo
     O segundo ato toma lugar no antigo laboratório de Fausto, onde seu discípulo Wagner, acompanhando os estudos de seu mestre, acabou de concluir o trabalho e produziu um homúnculo alquímico, um homem que vive num frasco. Wagner produziu este homúnculo fora dos meios naturais normais de concepção. Este homenzinho no balão de vidro encontra-se fora do domínio da natureza – uma alma e um espírito sem um corpo material adequado. O Homúnculo leva Mefisto e o ainda inconsciente Fausto para o mundo clássico da Grécia Antiga, onde ele procura se tornar um ser humano completo fora da retorta. O Homúnculo é um ser de fogo: seu frasco brilha com uma estranha luz, e através de uma discussão com dois filósofos antigos, ele conclui que deve procurar unir-se com o elemento água, a fim de alcançar um completo nascimento, e se tornar um ser real fora do fechado mundo do seu frasco. Ele encontra Proteus, um deus mutante que constantemente muda sua forma, e se aproximam do mar. Com o incentivo de Proteus, o Homúnculo submerge nas ondas em seu frasco e busca unir-se a Galatea, uma ninfa do mar, Deusa do oceano. A luz da retorta ilumina as ondas e, sob os pés de Galatea, o frasco se quebra e sua essência ígnea entra na água. Os quatro elementos são levados a uma nova harmonia através desse tipo de união sexual mística. Esta submissão voluntária do Homúnculo para com Oceano, aqui retratado como elemento feminino, é contrastada mais tarde na peça com a própria tentativa de Fausto, no quarto ato, em conter e prender forças elementares do oceano, uma espécie de ato de estupro cometido contra a ordem natural, que o leva diretamente à queda.
     Através da figura de Homúnculo, central para a peça, Goethe ilustra que o caminho que a humanidade trilha em busca do renascimento da iluminação em seu ser, encontra-se em seu próprio interior: constitui o reconhecimento e a aceitação do componente feminino da alma. É a evasiva de Fausto em relação ao seu lado feminino que o leva de encontro a todas as suas dificuldades, pois ele sempre escolhe ser guiado por Mefistófeles. Se pensarmos em Mefisto como uma parte da alma de Fausto, um alter-ego, é significativo que esta figura de trickster tenha uma perspectiva muito masculina, até mesmo machista. Fausto sempre projeta o feminino para fora de si.
     Na próxima parte da ação Fausto busca Helena no submundo montado no centauro Quíron, e com a ajuda de Manto, a profetisa.
     Mefisto, se disfarça como Fórcis, engana e convence Helena a ir morar com Fausto em seu castelo na região norte. Helena aqui representa exatamente a beleza clássica, mas também a sensualidade reprimida do mundo grego – um mundo que Mefisto considera desconfortável por carecer de um sentido digno de pecado, e sem o dualismo ele não têm como trabalhar suas decepções. Fausto vive com Helena e carregam uma criança: Eufórion. Este é impetuoso, e procura, como Fausto, elevar-se acima do mundo terreno, subir para as alturas e tomar o céu de assalto. Fausto agora vive em harmoniosa e feliz união com Helena. Suas lutas torturantes passadas agora não fazem mais nenhum sentido. Estas são projetadas em Eufórion. Depois de tentar violentar uma mulher, Eufórion morre como Ícaro, ao tentar voar alto no céu. A união de Fausto e Helena é desfeita, e esta retorna ao submundo de Perséfone com a alma da sua criança.
     O próximo ato nos leva de volta ao imperador que agora está em guerra. Fausto, com o sempre útil Mefistófeles, auxilia o Imperador e lhe permite triunfar sobre o inimigo, em troca dos direitos sobre a costa do seu reino. O grande plano de Fausto agora é estender a terra até o mar, para represar o oceano.
     No último ato Fausto completou grande parte do seu grande projeto de afastar as energias primordiais do oceano, e estabelecer sua própria terra, como tentativa de redesenhar o ambiente natural. Ele está frustrado devido a um casal de velhos, Baucis e Filêmon, os quais detêm uma cabana e uma capela em terreno estratégico, que Fausto quer moldar de acordo com seu próprio design. Goethe tece em seu drama, o mito clássico de Baucis e Filêmon, um casal de idosos da Frígia que forneceu abrigo a Zeus e Hermes enquanto estes caminhavam incógnitos pela terra. Todos se recusaram a hospedar os viajantes, que enviaram um grande dilúvio sobre a terra. Somente Baucis e Filêmon foram salvos e recompensados. Sua cabana foi transformada em templo dedicado a ofícios sacerdotais. No último ato da peça de Goethe, Fausto pretende mudar-lhes a localização do espaço sagrado e Mefisto envia capangas para expulsá-los. No entanto, o casal de idosos morre na luta e a casa é queimada até o chão. Nesta tragédia Fausto perde a visão.
     Em suas últimas horas ele tenta avançar com o seu grande plano em drenar os pântanos e estabelecer um grande paraíso na Terra, conquistado a partir do leito do oceano. Ele acredita que a humanidade, através da luta contra as forças da natureza, se tornará livre. Ironicamente, Mefistófeles leva o cego Fausto a acreditar que os operários estão concluindo o trabalho de sua vida, quando eles estão, na realidade, cavando a sua sepultura. Fausto morre acreditando que seu plano estava se realizando.
     Goethe traz a peça ao fim com uma cena de difícil entendimento. Mefistófeles vem à frente do enterro para buscar a alma de Fausto, sobre a qual tem todo direito. Entretanto, anjos descem do alto e, enquanto alguns deles distraem Mefisto, cortejando-o, outros levam a alma de Fausto ao céu. O espírito de Fausto é levado pelos anjos por meio de um coro de eremitas e abençoadas almas para a presença de Maria, a Mãe Gloriosa. O espírito de Margarida agora aparece e intercede por ele e a Mãe Divina diz que seu espírito pode passar à mais alta esfera. As palavras finais da peça ecoam a importância do feminino neste processo de redenção.
Tudo o que morre e passa
É símbolo somente;
O que se não atinge,
Aqui temos presente;
O mesmo indescritível
Se realiza aqui;
O feminino eterno
Atrai-nos para si.*
     A cena final do Fausto de Goethe sempre foi, para mim, insatisfatória, deixando muito da intensidade de expressão do drama não resolvido. Percebi que a produção não removia completamente as minhas dúvidas, apesar de parecer funcionar muito bem dramaticamente, com uma resolução ou liberação após o clímax de Fausto sendo levado ao céu. Mais tarde, depois de meditar sobre a experiência, cheguei a ver mais claramente o que Goethe pretendia.
     Fausto foi escrito ao longo de muitos anos e percebe-se que Goethe estava tentando refazer o mito da reforma dualista do Doutor Fausto vender sua alma ao diabo, em uma nova concepção alquímica da transformação através de suas experiências difíceis das polaridades internas do seu ser . Em uma visualização inicial ou leitura da peça, a cena final não nos apresenta um Fausto que efetuou a transformação interior do seu ser, que o permitiria escapar ao pacto com Mefistófeles. Em vez disso, Mefisto é enganado pelos anjos com um truque normalmente atribuído a ele mesmo. Margarida aparece como a alma penitente intercedendo junto à Mãe de Deus e se oferece para atuar como guia para a alma de Fausto no reino espiritual. Mas isto é inicialmente desconcertante à nossa percepção do verdadeiro caminho alquímico que seguramente deve ser tentar alcançar este encontro interior com a faceta feminina de nossa alma em nosso corpo, e não adiar tal desenvolvimento interior a uma vida após morte no mundo espiritual.
Cartaz do filme "Fausto" (1926)
     A ascensão de Fausto ao espírito ocorre inesperadamente no drama. As diferentes polaridades são resolvidas - o Deus Pai, no início da peça, coloca Fausto em dificuldades, ao passo que a Deusa Mãe libera-lo de suas obrigações e permite-lhe entrar no mundo espiritual. É fácil de visualizar esta solução, em vez de estilizá-la e impô-la ao o fluxo do drama. Goethe, é claro, foi uma alma mais profunda e não teria se curvado a sustentar um final feliz ao estilo de Hollywood.
     Parece-me que, se nos concentramos em Fausto como personagem principal da alegoria, então não encontraremos a transmutação ou desenvolvimento interior que resolve satisfatoriamente o drama alegórico. Se seguirmos uma interpretação onde todos os personagens individuais são submetidos a alguma transformação, e, ainda, que em certo sentido todos os personagens individuais poderiam ser vistos como partes de nossa própria alma, então talvez o Fausto de Goethe comece a ganhar coerência.
     Nós temos que perceber Fausto e Mefistófeles como duas partes da alma humana. Mefisto não é o diabo arquetípico, mas uma parte de Fausto que foi reprimida por sua imersão em uma Filosofia e Teologia que salientou o Deus patriarcal. O aspecto Mefisto barganha com essa figura patriarcal no início da peça como uma oportunidade de revelar-se e influenciar a vida de Fausto. As primeiras tentativas de Fausto de conjurar nas primeiras cenas da Parte I são falhas, porque ele tenta dominar e impor sua vontade sobre os espíritos elementares através do seu livro de instruções. Mas quando Fausto encontra Mefisto, sua faceta reprimida, então ele abandona seu trabalho anterior. Se Fausto tivesse permanecido fiel ao seu trabalho alquímico filosófico (como foi realizado e continuado por seu discípulo Wagner), na sequência ele formaria o Homúnculo, um ser de alma e espírito, mas sem corpo. O Homúnculo também deve ser visto como um aspecto de Fausto, um aspecto que é capaz de estabelecer uma relação submissa com o feminino. Margarida, desta vez, pode ser percebida como um aspecto de Fausto que surge após seu encontro com a figura de Mefistófeles. Fausto, nesta fase, ainda é incapaz de reconhecer o feminino em si mesmo. Daí ele usar a figura de Margarida egoisticamente, o que culmina com a execução desta devido às suas ações.
     A morte do aspecto Margarida, no final da Parte I, é um acontecimento de grande importância no drama. Na Segunda Parte, Fausto, em vez de olhar mais profundo dentro de seu ser para o feminino, volta-se para a figura idealizada, mítica e feminina de Helena.
Noite de Walpurgis
     Mefisto também passa por alguma transformação, pois, sob a inspiração do Homúnculo, todos os três voltam à época clássica em busca de Helena. Curiosamente, em todas as cenas em que aparece o Homúnculo, Fausto está inconsciente ou ausente da cena. Devemos, portanto, ver no personagem de Fausto um alquimista fracassado, alguém que negligenciou o trabalho sobre si mesmo na retorta interior em busca do  hermafrodita na alma.1 No entanto, no drama de Goethe, a transformação alquímica prossegue no contexto mais amplo da alma humana em que Fausto, Margarida, Mefistófeles, Helena e o Homúnculo são apenas partes.
     Durante a visita à clássica e grega Noite das Bruxas de Walpurgis, Mefisto mostra suas fraquezas 'humanas' nesse território desconhecido, onde o sentido protestante de pecado do norte da Europa não funciona de forma tão consistente. Ele descobre que é impotente contra quem não têm o sentido do pecado fundado sobre o dualismo. Mefisto é alterado interiormente por suas experiências e, posteriormente, na cena final, no seu flerte com os anjos, ele perde a alma de Fausto. A relação dinâmica dos aspectos Fausto e Mefisto, que excitou a trama desde o início, é então cortada pelo namorico de Mefisto com os anjos. O personagem Mefisto no início da obra teria sido muito cínico para cair neste truque. De fato, através da ação dramática, até o final da Parte II, Mefisto parece ter absorvido algo das fraquezas do caráter de Fausto.
     Os principais personagens da peça são, assim, aspectos polarizados de uma alma humana, cuja jornada de individuação é demonstrada no drama.

Esquema de polarização dos personagens no drama.

     Podemos reconhecer Fausto como o núcleo de uma vida complexa dentro de uma rede de polaridades: Helena, o ideal feminino arquetípico, e Margarida, a mulher terrena a partir da qual ele se isola; o Homúnculo, um potencial guia interior da alma hermafrodita, que poderia ter se desenvolvido em seu ser se ele se ativesse ao seu trabalho alquímico. No entanto, ele se volta para a figura de Mefisto, para se orientar. No final da obra é despojado de todas essas polaridades e fica aberto e vulnerável à morte.
     Se virmos Fausto desta forma, então as dificuldades colocadas pela cena final se dissolvem e a alegoria alquímica se revela claramente. Goethe queria que lêssemos todo o drama e não que nos identificássemos com o personagem Fausto, mas com a teia de personagens, parte da figura integral que pretendia pôr diante de nós. Goethe sempre procurou propositadamente confrontar suas plateias e leitores para levá-los além da avaliação intelectual de suas ideias. Para compreender os enigmas alegóricos em Fausto, não se requer a mera análise intelectual do drama e dos personagens, mas um encontro com Mefisto, Gretchen, Helena, o Homúnculo, bem como com o Fausto dentro de nós mesmos.

* Tradução extraída de: 
GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto. São Paulo: Martin Claret, 2004.

PEQUENO COMPLEMENTO DO AUTOR DO BLOG

     Como observou McLean, “em todas as cenas em que aparece o Homúnculo, Fausto está inconsciente ou ausente da cena”. O Homúnculo no Fausto é um ser sem corpo e constituído apenas de alma e espírito. Fausto, no início da peça, também parece ter apenas alma e espírito, pois não experimentara os prazeres da carne, o que efetiva apenas com Margarida. O Homúnculo, por sua vez, está em busca de um corpo onde possa habitar, e isso constitui simbolicamente a busca de Fausto, cuja solução é oferecida por Mefisto. O corpo, por sua vez, representa a parte material do homem, tida essencialmente como feminina. E Fausto tenta esse encontro ou conjunção com o feminino por duas vezes nas figuras de Margarida e Helena: mas nessas duas conjunções ocorre o malogro do produto dessa união de opostos: o aborto do filho de Margarida e a morte de Eufórion, filho com Helena. Entretanto, a verdadeira união com o feminino só ocorre no final e no âmbito espiritual, como se a união com o feminino no âmbito material não pudesse ocorrer, ou estivesse fadada ao fracasso. Isso lembra uma passagem de Jung muito pertinente à presente análise:
A percepção da realidade do instinto e a sua assimilação nunca se dão no extremo vermelho, ou seja, pela absorção e mergulho na esfera instintiva, mas apenas por assimilação da imagem, que significa e ao mesmo tempo evoca o instinto, embora sob uma forma inteiramente diversa daquela em que o encontramos ao nível biológico. [...] O mergulho na esfera dos instintos, portanto, não conduz à percepção consciente do instinto e sua assimilação, porque a consciência luta até mesmo em pânico contra a ameaça de ser tragada pelo primitivismo e pela inconsciência da esfera dos instintos. Este medo é o eterno objeto do mito do herói e o tema de inúmeros tabus. Quanto mais nos aproximamos do mundo dos instintos, tanto mais violenta e a tendência da a nos liberar dele e a arrancar a luz da consciência das trevas dos abismos sufocadores. Psicologicamente, porém, como imagem do instinto, o arquétipo é um alvo espiritual para o qual tende toda a natureza do homem; é o mar em direção ao qual todos os rios percorrem seus acidentados caminhos; é o prêmio que o herói conquista em sua luta com o dragão. (JUNG, 1991a, p. 216-217)
Esquema psíquico na mulher e no homem
     Fausto tenta violentar, iludir e controlar a natureza, mas nunca obtém seu intento. A conjunção final com o feminino parece mais obra de uma graça divina do que coroação de seus esforços. Pode-se perceber a morte de Fausto, no final, como a morte do ego e sua rendição ao Si-mesmo. O bem e o mal foram relativizados: o próprio Mefisto, Senhor da mentira, é enganado por anjos.
     Essa obra de Goethe contém várias alusões à psique. Não é por acaso que Jung a cita tanto em suas obras. Aliás, como sua mãe a lera ao menino Jung, Fausto constitui certamente uma das vias porque percorreu o grande psicólogo na busca pela síntese psicológica que constitui sua obra máxima.


RECOMENDAÇÃO PARA LEITURA:


- Fausto: uma Tragédia - Primeira Parte, de Johann Wolfgang von Goethe, TRADUÇÃO: Max Beckmann, Jenny Klabin Segall, Editora 34, ISBN: 8573262915, Ano: 2004.
- Fausto: uma Tragédia - Segunda Parte, de Johann Wolfgang von Goethe, TRADUÇÃO: Max Beckmann, Jenny Klabin Segall, Editora 34, ISBN: 9788573263732, Ano: 2007.

A vida em um ano


A vida é o fio que corre entre eu e o outro. É a tênue ligação entre o que sou e o que não sou. Entre o que acho que sou e o que acho que o outro é. Entre o que penso que o outro pensa de mim, e o que penso que o outro pensa sobre o que penso dele. É um jogo de hetero e autoimagens. 
“Que insensato eu fui! Como me esforcei para forçar todas as coisas a harmonizarem-se com o que eu pensava que devia ser...” *
Aprendi que as pessoas mais difíceis de lidar vivem ao nosso lado. Sempre me frustro, me decepciono com pessoas da família, ou amigas, ou colegas de trabalho. Mas frustração tem a ver com o que esperamos do outro, com a imagem que temos das pessoas que, uma vez confrontada com a realidade, provoca uma desilusão. Frustração é o sentimento que advém quando a ilusão se desfaz. Se me frustro constantemente com alguém, é porque me iludo com vários aspectos da pessoa em questão. Projeções... Sinal de que espero demais dela. Mas então não devo esperar nada de alguém? Talvez não, pois talvez nunca saiba exatamente quem é o outro e quem sou eu num determinado momento. Isso evita frustrações... E projeções...
“Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade. Se um homem não sabe o que uma coisa é, já é um avanço do conhecimento saber o que ela não é.” *
Mas há também a frustração positiva, quando a imagem negativa que tenho de alguém não se sustenta na realidade. Aprendi durante todo o ano passado que isso também pode ocorrer muito comigo. Então tenho frustração (negativa) comigo mesmo. Reajo de certa maneira defensiva a certas pessoas porque tenho uma imagem distorcida delas. E aí me envergonho, me culpo, me decepciono comigo mesmo, pois esperava estar certo. Tinha a convicção de estar totalmente correto em como reagia. E se não erro no tipo de qualidade que projeto em alguém, erro na intensidade com que o faço. No fim é a mesma coisa, o efeito é o mesmo, ou quase o mesmo.
“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.” *
Pessoas me exigem compromissos em relação às consequências de suas ações para com outras. Elas se tratam mal e eu é que tenho que lidar com as consequências disso... Cheguei a me torturar muito tempo, mas estou conseguindo me libertar. As pessoas tem que aprender a lidar com as consequências do que fazem, pois eu mesmo tenho que fazer isso em minha vida. E acredite: já existem consequências suficientes das minhas ações com as quais tenho que lidar todos os dias... Mas o difícil é, quando me cobram, lembrá-las constantemente de que o que ocorre no momento se deve ao que causaram no passado. Situações insustentáveis são criadas com isso, mas não são minhas responsabilidades, e não tenho que transformá-las.
“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.” *
Mas simultaneamente notei, ao longo do tempo, que lidar com o que as pessoas representam dentro de mim é que é a verdadeira dificuldade. Se tenho imagens negativas ou ideais sobre alguém, de onde as tiro? Onde elas se encontram? Dentro de mim. E isso já é responsabilidade suficiente. Minha sombra me segue todos os dias e a encontro não só no chão, mas no que acho nas pessoas e desconheço em mim mesmo.
“Tudo o que nos irrita nos outros pode levar-nos a um entendimento de nós mesmos.” *
Por muito tempo pensei ser o ideal alguém conseguir trabalhar exercendo uma atividade que gosta. O trabalho seria então uma espécie de hobby, e não uma autoimposição. Existem dois extremos: fazer o que gosta e se obrigar a fazer o que não gosta, muitas vezes por necessidade. Ao longo da vida, sobretudo ano passado, pude formular isso para mim mesmo: compreendi que, mesmo fazendo o que não gostava, eu poderia sentir prazer no que fazia se conseguisse de alguma forma me exprimir naquele trabalho. Se conseguia ser eu mesmo naquele ofício, naquela tarefa repetitiva, rotineira, mas necessária, conseguia sentir, até certo ponto, prazer em fazer. O trabalho tem seus objetivos e somos um instrumento do trabalho para se alcançar determinadas metas. Se existe liberdade para trabalhar de um modo prazeroso, acima de tudo com certa disponibilidade de tempo, seguindo os passos individuais, a maneira individual de fazê-lo, consigo trabalhar com prazer. O trabalho, efetuado dessa forma, comporta dois aspectos: um do outro, da empresa, da instituição, e outro meu, referente à minha individualidade e originalidade. O trabalho impositivo denota uma grande dose de “obriga-ação”, onde o aspecto obrigatório se liga às necessidades vitais e básicas do indivíduo. Se este não se obriga a fazer certa tarefa, não obterá recursos para satisfazer suas necessidades no mínimo básicas. A diferença dessa situação para a escravidão é que o indivíduo ainda tem a opção de não executar a tarefa e, então, incorrer na possibilidade de ficar desempregado. Na escravidão não há opções: a pessoa faz ou faz.
“O sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o.” *
O “fazer o que se gosta” é trabalho para afortunados. Como ainda não sei como é vivenciar essa situação por um longo período de tempo, só posso idealizá-la, sonhá-la. Certos questionamentos vêm: será que a pessoa que faz o que quer (trabalho) é feliz? Essa aparente falta de limites não acabaria dispersando a energia do indivíduo em várias direções e objetivos ilimitados? Não se esgotaria assim as possibilidades do que o indivíduo poderia fazer, não advindo daí a tão esperada concretização das metas? Não sei, pois, repito, ainda não vivenciei essa situação. Só posso dizer algo em relação à vivência do extremo oposto: o fazer por imposição. Talvez o trabalho-hobby não exista, isto é, não satisfaça tanto quanto imagino. Mas não tenho que lidar com isso neste momento.
“Aquilo que na vida tem sentido, mesmo sendo qualquer coisa de mínimo, prima sobre algo de grande, porém isento de sentido.” *
Aprendi ano passado que a vida não é fácil e nunca será, a menos que tenhamos fé. Esta realmente pode transformar nossas vidas de uma hora para outra e deixar tudo tão fácil como nunca pensamos. Mas aprendi também que é muito difícil sustentar essa fé por muito tempo. Então parece que a situação anterior e seu peso voltam e dobram de tamanho.
“Eu não acredito em Deus, eu o conheço.” *
É a primeira vez que formulo por escrito o que aprendi durante todo um ano. Sim, tudo isso é muito pessoal. Mas também é muito coletivo, é também impessoal, nesse sentido, pois acredito profundamente que são experiências típicas. São essências de vida, de experiências que todos passam. É sangue que corre na veia do ser humano.
“Queremos ter certezas e não dúvidas, resultados e não experiências, mas nem mesmo percebemos que as certezas só podem surgir através das dúvidas e os resultados somente através das experiências.” *
Formulei expectativas para o novo ano... Mas será que os anos também não são como pessoas? Não terão eles também sua individualidade? Será que posso esperar do tempo, ou devo esperar de mim mesmo? O que é a experiência de um ano senão o conjunto do que espero, do que faço, das consequências, das minhas reações, do que sinto, penso, relaciono, conecto, observo, enfim, do que vivo? “Um feliz ano novo!” Obrigado por desejar isso! Mas o ano que se inicia também sou eu e também é o outro. Espero que o novo que pode surgir em mim e no outro possa nos fazer viver plenamente!
“Tenciono agora fazer o jogo da vida, ser receptivo a tudo que me chegar, bom e mal, sol e sombra alternando-se eternamente; e, desta forma, aceitar também minha própria natureza, com seus aspectos positivos e negativos...” *

* As citações entre aspas foram tiradas das Obras Completas de Carl G. Jung.

Análise de "Branca de Neve e os Sete Anões" (TRADUÇÃO)


Escrito por Stephen Flynn
Terça-feira, 10 Maio 2005
Créditos: Maxwell Purrington
Colaboração: Marlon Xavier  

     Os Opie (Peter Mason Opie & Iona Archibald Opie, autores de “Os contos de fada clássicos”) nos dizem que a história de Branca de Neve pode ser encontrada com pouca variação em todo o mundo “a partir da Irlanda até a Ásia Menor e em várias partes do Norte e da África Ocidental” (Opie & Opie 1980, p. 227). Então, estamos lidando com um conto de fadas que tem muitos significados para muitas pessoas e com o fato de que os mitos continuam a fascinar.
     É uma lição de humildade perceber seguidamente que estórias tão simples como a de Branca de Neve ainda comporta tanto para nós, e tudo isso permanece profundamente oculto em sua simplicidade. Isso me leva a concluir que alguns contos de fada parecem se encontrar no mesmo patamar do mito, na medida em que, quanto mais leio sobre a ciência do mito, mais concluo que este conto possui os fatores-chave da mitologia clássica. 
     Se for assim, então poderíamos dar mais importância a esses contos simples. Talvez sejam “inventados” só para mostrar-nos algo de nós mesmos e talvez essas simples histórias sejam como C. G. Jung considera o mito: “expressões inconscientes de nós mesmos” (Jung e Kerényi 1989, p. 162).
     Minha dificuldade com os “mitos clássicos” é que já foram percebidos como eventos reais pelas religiões do passado. Ao passo que as estórias de fada nunca foram consideradas assim, embora aos olhos de uma criança essas histórias sejam julgadas verdadeiras. O homem medieval era como uma criança, um primitivo ou menos diferenciado em suas crenças de então do que o homem moderno? Será que ele dava credibilidade ao conto de fadas como nós agora damos à religião?
     Eu gostaria de acreditar que a sociedade mudou a ponto de distinguir um pouco melhor entre a autenticidade do “talvez”, e a fantasia do “e se...”. Seja qual for a atitude que se tiver para com a religião, o mito ou o conto de fadas, todos compartilham o propósito comum de transmitir significado. Os contos de fada e os mitos têm resistido ao teste do tempo e ambos contêm um padrão subjacente que fala à nossa condição atual. Com base nisso, sugiro que tomemos o conto de fadas a sério e tentemos descobrir que padrão é esse. Mas não importa o quão extensa seja a minha análise da história, significados mais profundos sempre persistirão. Como Jung colocou, “Os arquétipos são os elementos imperecíveis do inconsciente, mas eles mudam sua forma continuamente.” (Ibid, p.  98). Este “elemento imperecível” do inconsciente é a chave, contida no mito, para ajudar a nossa compreensão de um padrão, os mapas inconscientes dentro de todos nós. O que se pode identificar nesse mapa? É possível esboçar ou mapear as etapas da vida do cliente e, assim, ajudar na cura psicológica.
     Para iniciar a minha análise da Branca de Neve, assumirei que o conjunto da história até o momento descreve o estado da psique feminina imatura. Por exemplo, há três mulheres nesta história, e a primeira, a mãe atenciosa, logo morre deixando nossa heroína Branca de Neve com nenhuma mãe psicológica. Assim, todas as imagens na história podem ser vistas ou podem tornar-se aspectos de um feminino ou anima, independentemente do gênero (Jung 1960, p. 345).
     Vou assumir todas as pessoas mencionadas neste conto de fadas como representantes de complexos autônomos comuns a todos nós e ainda contidos em uma psique, isto é, vou tomar cada personagem da história como diferentes aspectos do Self. 
Versão de Jung e Kerényi (1989)
em português
     Esta é essencialmente uma história para meninas e posso estar correndo o risco de empregar um ponto de vista machista, mas gostaria de deixar claro que esses tipos de imagens imaturas se encontram também na psique dos homens ou no aspecto animus da psique (ibid.), e podem ser descobertos em histórias como “Joãozinho e o Pé de Feijão”. Na verdade, essas histórias nos dizem como desenvolver e integrar aspectos conflitantes de nosso ser expressos no mapa do nosso inconsciente pessoal. No início da história Branca de Neve, ou a anima, está longe de ter uma noção de como ela é ao mesmo tempo inocente e imatura e carece de uma figura materna zelosa interiormente. Vou continuar a seguir esta linha de pensamento ao longo do restante deste artigo porque há muito a ganhar em fazê-lo. Usarei os termos anima ou animus para intercambiar com as expressões menino/homem ou menina/mulher.
     Segue um breve resumo da história:
     Uma jovem rainha sentou-se a costurar junto a uma janela em pleno inverno, com um bastidor de ébano. Espetou seu dedo e, ao ver o sangue vermelho, fez um pedido para que a criança que concebia tivesse a pele branca como a neve, com as bochechas vermelhas como o sangue e cabelos e olhos negros como um bastidor de ébano. Posteriormente, uma filha nasceu com os dons que a Rainha desejava, mas esta morreu no parto. Um ano depois o rei casou-se novamente. Sua nova rainha era muito bonita, mas vaidosa e orgulhosa. Ela se baseava em um espelho mágico para assegurá-la de sua supremacia na beleza.
     Quando Branca de Neve tinha sete anos o espelho mágico disse à rainha que sua enteada a tinha ultrapassado em beleza. A rainha ficou furiosa e mandou um caçador para a floresta com Branca de Neve para que a matasse. Ele não conseguiu cumprir sua ordem, mas a deixou na floresta. Finalmente, ela encontrou a cabana dos sete anões, onde foi bem recebida. Comprometeram-se em cuidar dela, se permanecesse em casa, depois de ouvir sua história. Preocupados com sua segurança, disseram que ela não devia permitir a ninguém entrar em casa enquanto estivessem trabalhando, cavando metais preciosos nas montanhas próximas.
     Tudo ia bem até que a rainha madrasta descobriu através de seu espelho mágico que Branca de Neve ainda estava viva e ainda a superava em beleza. Ela fez três visitas tentando matá-la (após tentar fazê-lo pelo caçador) e parecia ter conseguido na quarta tentativa, ao entregar-lhe uma maçã envenenada pela janela.
     Os anões voltaram para casa para encontrar o corpo de Branca de Neve sem vida e colocaram-na em um caixão de vidro enquanto ela continuava tão linda como nunca. Algum tempo depois um príncipe apareceu em um cavalo, se apaixonou por ela e convenceu os anões a dar-lhe o corpo e o caixão. Assim que ele a colocou em seu cavalo, o pedaço de maçã envenenado caiu de sua boca e ela voltou à vida. 
     O príncipe voltou com Branca de Neve para seu castelo onde se casaram em meio a grande júbilo. A rainha madrasta dançou até a morte em fúria no casamento.
     Em termos psicológicos, o que ocorre com Branca de Neve?
Mãe de Branca de Neve
     Na versão dos Opies o título alternativo de “Floco da Neve” é usado, e começa com a mãe de Floco de Neve, uma rainha que “trabalhava junto a uma janela, com um bastidor feito de ébano negro. E como olhava para a neve lá fora, espetou o dedo e três gotas de sangue caíram sobre a neve. Então, ela olhou pensativamente para as gotas vermelhas aspergidas na neve branca” (Opie e Opie 1974, p. 230).
     É interessante comparar esta versão com a de Grimm: está realmente nevando, e assim a mãe de Branca de Neve “sentou-se à janela tecendo. Sua agulha de bastidor era de ébano negro, e como ela trabalhava e a neve brilhava, ela espetou o dedo, e três gotas de sangue caíram na neve. As manchas vermelhas ficaram tão bonitas na neve branca que a rainha pensou...” (Grimm 1984, p. 188).
     Esta reflexão silenciosa da rainha observando seu sangue congelado e o padrão que fez na neve ativou um profundo desejo em relação à sua filha em gestação. Esta forma de reflexão, segundo Jung, é um traço masculino dentro da mulher. O animus muitas vezes usa de imagens silenciosas para ilustrar ideias à mulher. Ele se apresenta “como um pintor [...] ou um diretor de cinema ou proprietário de uma galeria de fotos” (Jung 1960, p. 171). O motivo acima é um belo exemplo de tal experiência. Ou, como diria Jung “imagem e significado são idênticos: pois assim que a primeira toma forma este torna-se claro” (Ibid, p.  204).
Há outros arquétipos (Jung1981, p.  21) nesta história. A “Criança Primordial e a mãe terra” (Jung e Kerényi 1989, p. 158) é apropriadamente descrita no parágrafo de abertura, cujas cores preta e vermelha são retratadas no início da história. É somente mais tarde, com o desenrolar do conto, é que se torna evidente a necessidade de “estender a consciência feminina tanto para cima quanto para baixo” (Ibid, p.  162). Ao fazê-lo o broto como qualidade da menina se desenvolve e talvez as raízes se aprofundem.
     Mais significativo talvez seja o símbolo da transcendência do motivo acima: um mosaico de uma promessa futura que ultrapassa a vida da mãe. Note como a mãe de Branca de Neve “olhou pensativa a imagem e colocou sua futura filha em sua estrutura, visualizando seus futuros atributos. Dentro de um motivo podemos encontrar um puro ato feminino de imaginação, bem como o “traço masculino” de Jung (ibid) de uma mãe imaginando a natureza de sua filha antes de seu nascimento.
     Somos apresentados a um símbolo da criança através da neve no chão. O professor Kerényi a define “como uma imagem apresentada pelo próprio mundo. Na imagem da Criança Primordial o mundo fala de sua própria infância, e de tudo o que o nascer do sol e o nascimento de uma criança significam para o mundo.” (Jung e Kerényi 1989, p. 45). Mais tarde, ele refere novamente à Criança Primordial que “originalmente é composta tanto do que gera quanto do que é gerado. A mesma ideia, vista como destino da mulher, apresentou-se aos gregos. A qualidade de broto é expressa muitas vezes no nome dado à sua personificação: Kore, que é simplesmente a deusa “Donzela” (Jung e Kerényi 1989, p. 105). Nossa simples história toca em profundas imagens logo em seu início.
     Certamente o que se segue é o nascimento de uma donzela na qualidade de broto, e tudo o que se segue a partir desta descrição por Jung e Kerényi da ciência do mito é aplicável à Branca de Neve. Estes são os padrões antigos, de fato.
     Outras observações sobre o que foi citado incluem o número três recorrente: três gotas de sangue; a agulha negra, o sangue e a neve; fazer três imagens, dotando a filha de três atributos – cabelo e olhos pretos, pele branca e bochechas vermelhas – e os três símbolos “donzela”, “mãe” e “criança” que, formando uma unidade, envolvem um ciclo de morte da donzela que, em união com um homem, dá à luz e renova a vida. Três parece ser um número significativo. É quando chegamos ao número quatro que o processo finaliza. A mãe, a filha, a sombra (a madrasta perversa) e, finalmente, o Príncipe, é um exemplo de quaternidade. É o quarto elemento que aparece do nada para completar a história. O masculino ou animus aparece como seu príncipe. No entanto, antes de saltar para o final da história, nossa heroína tem de passar à fase final da transformação. Em termos de ação dramática, é com a quarta tentativa de matá-la que a rainha madrasta é supostamente bem sucedida. Talvez ela se esgote, por assim dizer, em sua quarta tentativa.
     Examinando o desenvolvimento do masculino e do feminino, percebemos que há dez homens na história da Branca de Neve. Nove são as fracas ou inadequadas figuras paternas dentro de Branca de Neve. Estes dez homens podem ser divididos em quatro estágios de evolução do masculino dentro do desenvolvimento da mulher em sua luta para se tornar completamente madura ao final da história.
     No entanto, antes do desenvolvimento do ego, não parece importar a questão do sexo da criança, como o professor Kerényi apontou: “a criança não era restrita aos papéis masculino ou feminino” (Jung e Kerényi 1989, p. 147). A transcendência psíquica das forças inconscientes em uma criança inclui o menino que transcende o homem ou, neste caso, a moça que supera a mãe. A metamorfose de “um desdobramento da ideia do broto, como que projetou a continuidade da vida na unidade ‘donzela, mãe e criança’, um ser que morre, dá à luz, e torna à vida novamente.” (Jung e Kerényi 1989, p. 148). (O macho em estado semelhante tem de enfrentar seu lado sombrio também. A não aceitação ou não integração da sombra não resulta em crescimento. Peter Pan nunca cresceu, por isso ele nunca teve uma sombra. Na prática clínica como terapeuta, peço ao paciente para explorar suas atitudes em relação à sombra dentro deles. Lembro-me de Joãozinho, em “Joãozinho e o Pé de Feijão”. Sua sombra era o gigante que ele ainda tinha que encontrar.

     PRIMEIRO ESTÁGIO

     O padrão começa a emergir quando lemos como a rainha morreu no parto de sua filha e, depois de sua morte, o seu marido, “o rei tomou outra esposa” (Grimm 1984, p. 188). Esta é a única menção do pai de Branca de Neve. É um pai totalmente indolente, porque não consegue proteger sua filha das mãos assassinas de sua nova esposa. Esta figura do pai omisso também ocorre em “Cinderela” e talvez em “Chapeuzinho Vermelho”, a qual parece não ter pai algum. Comum a todos esses contos é o fato de que o aspecto negativo do masculino (pai indolente) não pode ser integrado. Isso pode resultar em uma negação do masculino. É como se “essas moças fossem sempre condenadas a morrer, porque a sua unilateralidade feminina dificulta o processo de individuação, ou seja, o amadurecimento da personalidade” (Jung e Kerényi 1989, p. 172).
     Algo que é ausente na vida de uma pessoa ou que seja menos mencionado geralmente tem uma enorme contribuição a fazer. Nossa heroína começa com uma figura paterna ou animus quase inexistente e, nesta fase, a mãe está morta. Este estado psíquico é trágico. Falta-lhe uma imagem de mãe cuidadosa e de um pai que não pode se posicionar a seu favor e nada faz nas mais expressivas formas de violência, e não fazer nada impede a sua cura. Ele não oferece quaisquer sugestões de orientação, ou mesmo tentativas de controlar as forças furiosas internas, personificadas pela madrasta perversa. Ele nada faz contra a fúria que se opõe. “O saldo contra o animus fraco é uma sombra feminina negativa e inflada que é totalmente inconsciente e parece possuir uma sabedoria peculiar própria” (Jung 1981, p.  233f), na forma da madrasta. Toda a história parece ser sobre Branca de Neve enfim encontrar seu príncipe, a décima figura masculina, antes que seja capaz de enfrentar e domar sua fúria interna.
Branca de Neve no caixão de vidro
     Apesar do Ego constituir “uma imensa acumulação de imagens de processos passados” dentro de Branca de Neve ele está, no entanto, em um estágio infantil e sem limites (Jung, 1960, p. 323:360). Este estado psíquico inicial contém tudo que é necessário para formar um adulto, mas sofre de uma falha de adaptação, compensada por “uma reativação das imagos mais antigas e regressivas dos pais” (Jung 1995, p. 140). Como vemos, há um crescimento da fêmea primitiva na forma da rainha madrasta má. Portanto, não é surpreendente que esta “sombra” dominante (ibid., p.  208) tente desalojar o Ego, especialmente quando casada com um animus fraco como este. Branca de Neve está inserida em uma confusão. Podemos concluir que o inevitável “suicídio parcial” é uma forma da sombra restringir a existência de Branca de Neve, nossa heroína (Jung e Kerényi 1989, p. 110). Se ela fosse uma paciente nesta fase de desenvolvimento, pareceria histérica, aterrorizada com a liberdade e, ao mesmo tempo, dependente de quem estivesse disponível. Ela pode muito bem descrever seus sentimentos comparado-os a estar em um lugar pequeno e escuro, se escondendo da responsabilidade e do perigo da amplitude do mundo lá fora.
     O ego iniciou seu desenvolvimento quando Branca de Neve tinha sete anos, quando então encontramos o terror expresso pela nossa rainha madrasta. Este terror também pode acomodar ciúme, falta de amor pela criança interior, que então se torna detestável e homicida. “Estaria pronta para arrancar seu coração de seu corpo” (Grimm 1984, p. 189).

SEGUNDO ESTÁGIO

     Neste ponto ocorre o primeiro lampejo de consciência por parte de Branca de Neve. Ela é considerada uma ameaça para a figura de sombra em sua psique – a madrasta malvada. Assim, o primeiro estado de consciência do sexo masculino surge também – o Lenhador que não fará nenhum mal, mas que não a protegerá também. Este é um estágio transitório para Branca de Neve, pois ela se encontra vagando na floresta, abandonada pelos adultos. 

O caçador
     A sombra interior, nossa nova Rainha usurpadora está para destruir Branca de Neve e contratou os serviços de um Caçador como assassino. Assim é introduzida a segunda figura masculina. Ele não recorre à força como o primeiro, ele faz algo e se recusa a prejudicá-la, mas também falha em protegê-la, e a deixa exposta aos perigos desconhecidos da floresta. Pelo menos ele engana a figura da sombra e apresenta o coração de um cervo como sendo o da enteada. 
     O Ego, nesta fase, está sob o feitiço de forças interiores desconhecidas e se encontra limitado em sua liberdade “alienado da vida normal” (Jung1960, p.  311), onde ela continua se “escondendo na floresta”.
Toda a força masculina do pai em Branca de Neve estava hipnotizada pelos atributos de beleza que mascara o conteúdo mau que não abriga nenhum calor do sentimento. É-nos dito que a rainha sombria “não podia suportar que alguém a superasse em beleza” (Grimm 1984, p. 188). E, claro, ela tinha o espelho mágico. Era mágico porque o reflexo percebido no espelho refletia o verdadeiro Eu olhando de volta, de dentro dele. Este é realmente um símbolo de um aspecto da beleza feminina. Jung diz de tal mulher que elas possuem uma “arte de se iludir em personificar uma virtude exclusivamente feminina”. No entanto, parece que, se a mulher permanece “contente em ser uma fêmea do lar, ela não adquire individualidade feminina. Ela fica vazia e se torna tão somente um enfeite – um vaso de boas-vindas para a projeção masculina” (Jung e Kerényi 1989, p. 172-3). O espelho disse à rainha que ela já não era a melhor. A primeira reação: “a rainha ficou apavorada” (Grimm 1984, p. 189). Um sentimento bastante interessante, quando consideramos que é só a competição pela beleza que está em jogo. Sua beleza está também sob controle, porque se ela não deixa seu homem hipnotizado, ele a vê e tudo fica perdido.

TERCEIRO ESTÁGIO

Os sete anões
     Nesta fase encontramos de fato mais maturidade no feminino e no masculino. Branca de Neve encontra o homem comum, a grande maioria dos homens – todos os sete! Eles (os anões) trabalham o dia todo e esperam que todos os outros o façam. Então Branca de Neve faz um acordo provisório com base na ajuda mútua: ela faz o trabalho de casa para seu sustento e eles precisam/devem trabalhar. A sombra usa um disfarce, nesta fase, ao mesmo tempo em que se torna consciente do desabrochar do ego de Branca de Neve. Mas os anões não são crescidos o suficiente, como se tivessem a metade do tamanho de um homem, falham em proteger o feminino sob sua responsabilidade e deixam Branca de Neve desguardada, mesmo depois de repetidas tentativas de homicídio. Da mesma forma, o feminino é tão estúpido que obedece à instrução de não abrir a porta, mas abre a janela, porque nunca foi dito para não fazer isso.
Ela encontra o animus na forma múltipla “os quais são indiferenciados e muitos” (Jung1981, 16ss). “O animus também incorpora figuras prestativas” como os Anões provaram ser, e assim iniciam o caminho de volta à recuperação do Ego (Jung1960, p. 347).
     Neste estado, embora obviamente angustiada, Branca de Neve é incapaz de entrar em contato com seus sentimentos. A cisão interior, enfim, se torna evidente. A descoberta do ódio manifestado por sua própria mãe negativa interior é claramente testemunhada. Tudo isso é doloroso de se perceber para as pessoas da vida real também, e nossa heroína está apenas começando a vê-lo. O Ego subjugado precisa encontrar a si mesmo. Nesse meio tempo, há necessidade de que o Ego cresça, tornando-se mais diferenciado, ainda que isto seja um processo lento.
     Pensando bem, a sombra (a rainha má) não é a herdeira legítima da psique. Ela está possuindo o Ego e, assim fazendo, está preparada para executar o suicídio parcial. As atividades da rainha má incluem a noção de que “não há perda real da realidade, apenas sua falsificação” (Jung 1995, p. 140). Observe como a sombra feminina inclui a porção “cintilante” da libido. Ela seduz o masculino com pouca preocupação com o propósito mais saudável de inclusão da necessidade de formar um relacionamento íntimo ou reprodutivo. No entanto, em nossa história o potencial dos recursos do ego para se esconder e, assim, crescer, vai lentamente substituindo o animus totalmente inepto (o pai indolente) pelos anões indiferenciados, mas úteis. (Talvez o terapeuta desempenhe o papel dos anões de recuperar os tesouros do inconsciente, e o analisando seja representado pelo Ego “mantendo a casa”,  o espaço temporário seguro.)
     Ao trabalhar com mulheres que se esforçam para se integrar, a tarefa do terapeuta inclui ajudá-las a “manter tudo arrumado, limpo e ordenado” (Grimm1984, p.  191), e ajudá-las a ver “diretamente que nem tudo estava certo” (Opie e Opie 1974, p. 232). Este último comentário inclui olhar para o aspecto social de nossos pacientes também.
     O número de vezes nos contos de fada em que uma menina possui um pai “de nome apenas” indica uniformidade. “O psicoterapeuta não pode deixar de ficar impressionado quando percebe o quão uniforme as imagens inconscientes se apresentam apesar de sua riqueza aparente” (Jung 1995, p. 175). (Só mais tarde, no filme “Branca de Neve e os Sete Anões”, de Walt Disney, em 1938, é que os anões recebem traços individuais).
     Para o crescimento pessoal de Branca de Neve, sua transcendência depende do processo de reconstrução do pai masculino inadequado com a ajuda dos Anões.
     “Assim, os anões criativos trabalham firme em segredo; o falo, que também trabalha na escuridão, gera algo vivo; a chave abre a porta misteriosa proibida por trás da qual alguma coisa maravilhosa aguarda ser descoberta” (Jung 1995, p. 124). Eles mergulham no subsolo ou inconsciente para encontrar pedras preciosas e minerais. Nesse meio tempo a sombra impostora, que falhou na primeira vez, faz mais três tentativas de destruir o Ego. Ela pensa que na quarta consegue.
Branca de Neve na floresta
     Branca de Neve foi perseguida, subtraída de seus direitos, mal interpretada ou falha em seu entendimento, e ainda assim demonstra poucas emoções. Ela agradeceu ao caçador incumbido de matá-la “tão docemente” (Grimm 1984, p. 189) por poupar sua vida... Outra rara expressão de emoção ocorreu quando ela estava na floresta, quando é narrado que ela se tornou “terrivelmente assustada e sem saber o que fazer. Ela correu por tanto tempo quanto podia até seus pés ficarem muito doloridos. E à noite ela avistou, para sua grande alegria, uma bonita casa” (Grimm 1984, p. 189). Suponho que este seja o estágio em que, quando alguém sofre esse tipo de problema, se sente em um nível inferior, abandonado por todos e procurando ajuda. Quantas vezes nós terapeutas ficamos maravilhados com o que nossos pacientes já passaram? Muitas vezes me deparo com um embotamento afetivo acompanhado de resistência. E esta última é que os levará através da análise a alcançar a integração. É como se a resiliência, ou a capacidade de sofrer, fosse idêntica à tarefa a ser superada. 
     O conto de fadas do desenvolvimento pessoal do jovem é semelhante, mas ele sai para atender à sua sombra; já a mulher permanece em casa e é visitada pela sombra. Enquanto Joãozinho (em “Joãozinho e o pé de feijão”) disfarçou-se três vezes ao se aproximar do complexo da sombra “Ele preparou um vestido como disfarce, e algo para descolorir sua pele. Assim, ele pensava ser impossível a qualquer um reconhecê-lo” (Opie e Opie 1974, p. 221). Com o feminino ocorre o oposto: como sombra, a rainha madrasta disfarçou-se três vezes – “se disfarçou como um velho mendigo” (Opie e Opie 1974, p. 232); na segunda vez a rainha má “vestiu-se novamente em disfarce, mas de forma bem diferente da primeira” (ibid, p.  234). Poder-se-ia pensar que Branca de Neve a reconheceria neste momento, mas não! Em sua última e terceira visita somos informados que “ela vestiu-se como esposa de um camponês” (ibid, p.  234). Ao trabalhar com certas mulheres, muitas vezes me surpreendo por não perceberem que o que ocorre em suas vidas é inadequado. Elas passaram a aceitar o inaceitável. Parece haver uma necessidade em ajudar o Ego a reconhecer o comportamento inapropriado, aceitando sua sombra, para que possa crescer. Instigar um diálogo com o lado negro é essencial nesta tarefa de negociação com a sombra. Este trabalho também envolve a análise da atitude mantida pela sombra. Acho que a técnica de Jung para a ativação da “função transcendente” (Jung 1960, p. 67-91) pode ser usada aqui com grande vantagem.

QUARTO ESTÁGIO

O coma de Branca de Neve
     O príncipe entra em seu mundo só quando ela fica inconsciente, antes que ela possa reivindicar seu direito ao título de princesa. Que sorte ela teve quando, deitada como morta, o Príncipe se aproximou ou, como Jung disse, “existe em nós um outro substrato nervoso, além do cérebro, que pode pensar e perceber, ou se os processos psíquicos que ocorrem em nós durante a perda de consciência não são fenômenos de sincronicidade” (Ibid, p.  509).
     Outro padrão comum no conto de fadas é a ideia de ocultar ou o coma da heroína, que equivale a um tipo especial de sono, e até mesmo a consequência (no nosso caso) da rainha má parar de tramar também. O Ego tem agora uma chance de ser resgatado, isto é, de retornar à vida e, ao mesmo tempo, reivindicar a unidade com o masculino (a chegada do Príncipe). Unidos em casamento, eles retornam para colocar a usurpadora em seu devido lugar.

OS PRINCÍPIOS UNIVERSAIS DA VIRGINDADE

     Parece haver seis aspectos principais nos princípios universais da vida encontrados no mito da donzela (Jung e Kerényi 1989, p. 137). Quantos desses princípios podemos encontrar no conto de fadas? Ofereço uma breve comparação entre o que os dois professores deduziram e o que veio à luz em nossa história: 
     1. O primeiro princípio é “ser perseguido” (Jung e Kerényi 1989, p. 137). Branca de Neve foi, certamente, perseguida pela rainha madrasta, “e trilhou o seu caminho ao longo dos morros para o lugar onde habitavam os anões” (Opie e Opie 1974, p. 232). 
     2. O segundo aspecto é o de ser “roubada” (Jung e Kerényi 1989, p. 137). O patrimônio de Branca de Neve foi usurpado. Ela era princesa e legítima herdeira de todo o reino. A madrasta roubou-a de seus direitos e teria subtraído sua vida também. 
O laço apertado feito pela madrasta
     3. O terceiro aspecto do mito da donzela tem a ver com “ser estuprada” (Jung e Kerényi 1989, p. 137). Tais calamidades não são permitidas em histórias para crianças. No entanto, Branca de Neve foi, sem dúvida, abusada fisicamente ao ser submetida aos maus tratos da madrasta que amarrou um cordão de seda para que permanecesse em volta de sua cintura e “prendeu o laço tão apertado, que Branca de Neve perdeu o fôlego, e caiu como morta” (Grimm 1984, p.  192). Em seguida, a criança foi submetida a um pente envenenado e ela “impediu a mulher que escovaria seu cabelo, mas não antes que o pente tocasse as raízes capilares e iniciasse seu efeito” (Grimm 1984, p. 193 / 4). Finalmente, depois de ter falhado apertando a pele branca e escovando os cabelos de ébano preto, ela envenenou-a com uma maçã em seus lábios vermelhos. Tudo isso não equivale ao estupro, mas certamente constitui um grave abuso.

     4. A quarta qualidade, de acordo com Jung, é a donzela “não conseguir entender” (Jung e Kerényi 1989, p. 137). Branca de Neve fez isso em tantas ocasiões... Parece que ela nunca entendeu. Foi dito a ela para “em nenhuma ocasião abrir a porta” (Grimm 1984, p. 194), o que ela tecnicamente seguiu. Mas em vez disso, gritou à esposa do camponês disfarçada “‘Não me atrevo a deixá-la entrar; os sete anões me proibiram.’ ‘Tudo bem’, disse a mulher do fazendeiro. ‘Espere e eu te mostrarei as minha maçãs.’” (Ibid, p.  194). Em qualquer situação, poderia alguém ser tão fraca? Branca de Neve não é tão inocente, mas ela desempenha esse papel pelo seu desejo de bugigangas e guloseimas em oferta. Isso demonstra sua grande ingenuidade, dando ao  seu rito de passagem uma configuração completa, na medida em que ela encarna o arquétipo mítico da virgindade. Ao trabalhar com pessoas que sofrem essa divisão interna, jogo com as  qualidades das habilidades da sombra de saber, ser esperta, ter sabedoria, como uma das razões pelas quais é necessário aceitá-la. No entanto, ao que parece, Branca de Neve é tão inocente, mesmo nesta fase, que uma tentativa de introduzir a sombra para ela seria quase desastroso. Ela tem que morrer, e então se transformar e tornar-se uma mulher em primeiro lugar. 
     5. Após sofrer tanta dor e maldade, nossa doce heroína deve, em algum momento, passar à quinta qualidade “a raiva” (Jung e Kerényi 1989, p. 137). Em nossa história não há nenhum indício de que Branca de Neve fique realmente enfurecida ou triste, mas a sombra sim. Isso só pode ocorrer quando o príncipe ou o animus se estabeleceu na psique feminina.
Pela primeira vez, a madrasta perversa é realmente convidada pelo Ego, ou seja, se junta ao que Branca de Neve está fazendo. A sombra é reconhecida. Este é o estágio final, onde a sombra é convidada pelo Ego a juntar-se a ele, não o contrário. Ao fazê-lo, à Sombra é permitida a expressão de raiva e tristeza.  
     6. O sexto princípio é “lamentar” (ibid), que conclui o rito de passagem. Vou deixar a história assumir e se expressar por si mesma. 
O espelho mágico e a rainha
   “Ora, aconteceu que a madrasta de Branca de Neve foi convidada, entre outros, para a festa de casamento. Antes de sair de casa, ela se postou vestida ricamente diante do espelho mágico para admirar sua aparência, mas não pôde deixar de dizer:
     'Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?'
Então, para sua surpresa, o espelho respondeu: 
     'Tu és a mais bela rainha aqui, mas no palácio, agora, a noiva vai provar ser mil vezes mais bonita que tu.'
     Então, a malvada mulher soltou uma maldição, e ficou tão terrivelmente assustada que não sabia o que fazer. No início, afirmou que não iria a casamento algum, mas não descansaria até que visse a noiva. Então ela resolveu ir. Mas, para seu espanto e aflição, quando ela reconheceu a jovem noiva, a própria Branca de Neve, agora crescida e encantadora, ricamente vestida com trajes reais, sua raiva e terror foram tão grandes que ela parou e não conseguiu se mover por alguns minutos. Finalmente, ela entrou no salão de baile, mas as sandálias que usava eram como correntes de ferro incandescentes, com as quais ela foi obrigada a dançar. E assim, com sandálias vermelhas e brilhantes, ela continuou a dançar até que caiu morta no chão, um triste exemplo de inveja e ciúme” (Grimm 1984, p. 198). 
     A interpretação do complexo dançando sem causar danos de morte por aflição e raiva aos outros, constitui o desaparecimento da donzela (Jung 1960, p. 98 e 369). Esta é outra razão pela qual a donzela teve que morrer na história, para indicar que sua inocência não existe mais. Significativamente, seu casamento ocorre ao mesmo tempo, indicando a unificação do feminino e do masculino. Este é o símbolo do quarto elemento ou do quarto estágio (ver acima), a conclusão.
     Tentei mostrar que o conto de fadas possui muitas das características normalmente atribuídas ao mito clássico. Por isso sugiro que o conto de fadas seja levado a sério como representação autêntica de primitivos padrões inconscientes na psique. 
     Robert Graves sugere que há poucas referências ao assassinato ritual de mulheres no mito Europeu (Graves 1999, p. 411). Ele cita a beleza das histórias folclóricas alemãs da “Bela Adormecida” e “Branca de Neve” como exceções. Afirma que elas são significativas por incluírem também a consideração do número 13. No caso de “A Bela Adormecida” ele representa o décimo terceiro mês, o mês da morte, no qual o décimo terceiro hóspede não convidado profere maldições à Princesa.
     Em relação à Branca de Neve, Graves afirma que ela era uma deusa manifestamente imortal e que “Estas mortes são, portanto, apenas mortes simuladas”. A ênfase é sobre o “drama anual, quando se consente à noiva abrir seus olhos semicerrados e sorrir” (ibid, p.  412). Então, Graves não coloca obstáculo em elevar o conto de fadas ao nível do mito clássico.
     Só para completar a minha analogia do conto de fadas com o mito, antes de concluir, Jung então acrescenta que “a donzela irá regredir e nascer de novo” (ibid, p.  137). Ela toma o lugar da mãe, tornando-se capaz de refletir sobre como ela mesma foi concebida por sua mãe, e assim por diante, dirigindo-se para trás e para frente no tempo. Vimos que, embora a anima seja singular no homem, possui qualidades tanto positivas quanto negativas. Em contraste, o animus na mulher é múltiplo, representado pelos dez homens. Observe a progressão: o primeiro foi seu pai, que não fez absolutamente nada. O segundo homem não fez mal a Branca de Neve, mas pouco fez para ajudá-la ao deixá-la na floresta. Ela disse a ele, implorando, que a deixasse livre.
     O terceiro tipo de homem é o mais comum, os sete anões, que eram muito melhores, pois a levaram, e ofereceram abrigo e conselho. Eles cuidaram dela quando foi atacada. Ela voltou atrás (note que este é o primeiro ato de comunicação com o masculino). Para cuidar da casa deles, ela fez um contrato, um acordo. Mas os anões não ficaram para protegê-la quando quase foi morta. Em vez disso, a deixaram aos seus próprios cuidados. Assim, a atenção dos anões ao objeto feminino de sua responsabilidade ficou inacabada. Não formavam um homem completo.
     O último tipo, o quarto, era o Príncipe. A décima figura masculina representa o símbolo de conclusão, de unificação com o masculino. Afinal, Branca de Neve é essencialmente uma história para meninas, e trata do desenvolvimento da psique feminina, embora toda a história seja tão relevante para homens quanto para mulheres, como espero ter mostrado. 
     Lembro de um caso onde C. G.  Jung, ao concluir um  caso difícil, em desespero, aconselha um paciente neurótico a apenas “calar a boca!”. Eu associei que o pedaço de maçã preso na garganta de Branca de Neve fez exatamente isso: “calá-la”. Assim, o Ego interrompeu a sombra de criar ainda mais caos. O aspecto negativo do feminino tem que ser silenciado, antes que o Príncipe possa chegar. 
     E se o príncipe encontrasse a madrasta malvada em primeiro lugar? Isso levaria a um novo conto. Mas, através do “silêncio controlado” ao príncipe foi dado espaço para tornar-se encantado para sua noiva, e, assim, se estabelecer. 

CONCLUSÃO

     Eu tentei estabelecer padrões subjacentes da psique no conto de fadas o examinando a partir da noção de que a história poderia também ser interpretada como um aspecto do desenvolvimento psíquico. Tentei traçar o processo através do qual nossa heroína teve que passar a fim de atingir a integração, como uma ajuda à nossa compreensão.
     No início da nossa história, onde Branca de Neve se encontra quase em coma e indiferenciada: pode-se dizer que tais pessoas estão em choque, no caos, e em um estado de não saber para onde se dirigir e continuar a viver em um estilo de vida solitário e de medo. Quando existe algum grau de diferenciação, a sombra fica ameaçada. Um terror prevalece em torno da perspectiva de assumir o que é legitimamente seu; liberdade para se tornar, a liberdade em abraçar seu próprio oposto.
     Ao invés de contemplar essa liberdade, tal indivíduo prefere criar o caos e até mesmo desejar morrer. Nesta fase primitiva do Ego vive para agradar aos outros. 
     Nossa heroína não foi capaz de buscar o que é útil a partir do inconsciente, e fazia pouca ideia do seu próprio lado escuro.
     A partir desta história, podemos ter uma noção do estado de falta de energia dessas pessoas. Em uma atitude ingênua uma pessoa atribuirá aos outros tudo o que acontece com elas, não se responsabilizando por si mesmas. Não estão dispostas a aceitar seu próprio lado escuro. Depois de vários incidentes provocados por seu próprio comportamento destrutivo, ainda são incapazes de olhar para a fúria dentro de si, mas optar por permanecerem afastadas da vida.
     Declarações como “eu não posso” fazem parte do jogo de poder da sombra que as impede de perceber sua parte nessa destruição. 
     Neste ponto ocorre um longo processo de diálogo psíquico e dramático com o complexo e, lentamente, nossa heroína (Ego) começa a aceitar suas próprias falhas.
Existem muitos perigos nesta fase, quando o Ego agrega conhecimento das profundezas do inconsciente. Este processo continua até que a fase final do conflito ocorra, onde o Ego fica em sérios apuros. O estado da consciência se revela intolerável. As opções são gritantes: aprofundar o coma ou achar uma maneira de experimentar mais plenamente a vida. 
     Para completar a sua integração, nossa heroína deve convidar sua sombra a tomar parte.
     A pessoa tem que aprender a “calar” as reclamações intermináveis feitas pela sombra, testemunhar a sua própria raiva e descobrir uma maneira de expressá-la sem causar danos, isto é, observar sua fúria “dançar sem causar danos” é preferível a se tornar sua própria vítima mais uma vez. Então pode-se decidir suster as ações inúteis e prejudiciais anteriores e assumir o controle de sua própria vida ou, como na história, governar seu próprio reino. 

REFERÊNCIAS:

Anderson, H, C, The  Complete  Illustrated Stories of Hans Christian Andersen  (1983), Chancellor Press London.

Jung C,G. The  Collected Works..Vol” 8. “The Structure and Dynamics of the Psyche “1960 Routledge London .

Jung C,G. The Collective Works. Vol “6  pt X1. “Psychological Types”  “1971  Routledge  London.

Jung C,G.  The  Collected Works. Vol” “9 pt 11. “Aion” 1981. Routledge , London.

Jung C, G. The Collected Works Vol 16  “The Psychology of the Transference” “1983 Ark Paperbacks. London

Jung C,G. The  Collected Works.  Vol 12. Psychology and Alchemy 1993 Routledge London

Jung C,G. The  Collected Works.  Vol  5 Symbols of Transformation 1995 Routledge London

Jung C, G.& C. Kerényi Essays on a Science of Mythology 1993 Princeton University press USA.

Opie. P & I. The Classic Fairy Tales. 1980  Granada. Oxford.

Graves Robert The White Goddess (1999) Faber and Faber.

© Stephen Flynn 2005.